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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Um romance de cavalaria às avessas

Por sugestão de Thaís Cordeiro (colega das aulas de alemão), no Facebook, informo, a quem interessar possa (e a quem não interessar também) que terminei hoje a leitura de O cavaleiro inexistente, de Italo Calvino, iniciada na terça-feira.



Foi quase uma leitura clandestina, realizada nos pontos de ônibus (peraí, ponto de ônibus não faz parte do meu dialeto: é parada de ônibus mesmo!), dentro dos referidos veículos e também na sala de espera de um consultório médico. Tudo isso para que as minhas leituras acadêmicas (extremamente necessárias ao meu doutorado) não o soubessem. Até porque ler um texto teórico em inglês dentro de um ônibus sacolejante pelas não tão bem asfaltadas ruas de Natal pode resultar em uma tarefa ingrata e quase nada produtiva.

Pois bem, voltando ao livro: este é apresentado em sua contracapa como "um romance de cavalaria às avessas" (gostei tanto dessa expressão que resolvi utilizá-la para dar título ao post), e o é com certeza. Ele conta, com um humor ora sutil, ora irônico e sarcástico, a inusitada  história (talvez inusitada seja um eufemismo, pois na mesma contracapa, aparece o adjetivo bizarro para se referir a ela) de Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez (ufa!, que nome comprido), o mais fiel, dedicado, destemido, metódico, conhecedor de todo o código de cavalaria e das regras e costumes da guerra, detentor da mais brilhante e bem-cuidada armadura de todo o exército do imperador Carlos Magno. Porém, com um grave e talvez imperdoável (ou não) defeito: não existir. Era apenas uma armadura vazia por dentro, mas cheia de uma vontade férrea capaz de tornar aquela armadura o mais fiel, dedicado... ops, já disse isso.

O livro é narrado por uma religiosa (ou pelo menos é o que pensamos durante quase toda a história), a irmã Teodora, a quem foi designada essa tarefa como penitência pela madre superiora. Ela nos conta que o inexistente cavaleiro Agilulfo tornou-se cavaleiro por defender a virgindade uma donzela. No entanto, esse feito é contestado por um suposto filho dela, o que leva o nosso herói em busca de uma virgindade perdida quinze anos antes (a fim de poder continuar sendo paladino do exército franco, ostentando todos os títulos que havia conquistado a partir desse feito heroico). Devo mencionar que essa jornada de Agilulfo constitui um verdadeiro alívio para o exército de Carlos Magno, que mal consegue suportar o cavaleiro com sua arrogância e pedantismo, arrotando conhecimentos e leis e regras de cavalaria e de guerra por onde passava, e desmentindo os "grandes" feitos dos paladinos do exército com sua memória infálivel.

Cumpre dizer que o cavaleiro não parte sozinho em sua busca. É acompanhado por Gurdulu, seu louco escudeiro; e seguido por Bradamante, a donzela guerreira, perdidamente apaixonada por ele; e por Rambaldo, jovem guerreiro que, no início da história, entra na guerra para vingar a morte de seu pai, pelas mãos do emir Isoarre, do exército sarraceno, mas, tão logo a vingança é consumada, encontra um motivo para continuar guerreando, no amor não correspondido por Bradamante.

A fim de não estragar a história (revelando spoilers) para quem ainda não teve o prazer de desfrutar dessa curta, porém ótima narrativa, não revelarei se a jornada de Agilulfo foi ou não bem-sucedida, se ele conseguiu ou não reaver seu título de cavaleiro, se Bradamente conseguiu ter seu amor correspondido ou se o pobre Rambaldo teve sucesso em sua busca amorosa. Resta-me, unicamente, recomendar a leitura, certamente bastante prazerosa, desta obra, considerada (pelo menos por mim) um dos grandes clássicos da literatura mundial no século XX (acho que talvez tenha sido um tanto quanto bajulador, mas é porque realmente gostei do livro).

3 comentários:

  1. Confessor excelente o texto, objetivo, claro e cheio de humor. Vou vir mais vezes por aqui. Parbéns.

    Laurence Bittencourt

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  2. Hummm, esse livro me fez lembrar de um muito conhecido...ou é mera semelhança... Bom, se seu objetivo era conseguir leitores pra 'seu Calvino', o fez, pq agora tou curiosíssima pra ler-lo.
    Tata!

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  3. Já está em minha hotlist, que de tão longa já deve ser frozenlist..., mas um dia leio. Calvino é super.

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